"O que me preocupa não é o grito dos maus, é o silêncio dos bons."


20 de mai. de 2010

Eu vi Daniela

Eu vi Daniela. Moça bonita, 18, 19 anos, usava calças jeans, uma blusa simples, e brincos, desses que a moda dita. Eu vi Daniela. Ares de adolescente, negra, nos pulsos usava algemas, e chorava, de medo, muito medo.
Eu vi Daniela na ante-sala da sala de audiência de uma Vara Criminal. Aguardando um momento irreversível, minutos em que sua vida seria devassada, suas intimidades jogadas sobre a mesa. Nos olhos vermelhos de Daniela, medo. Dali a poucos instantes sua vida estaria decidida. Aquelas algemas para sempre serão lembradas. Aqueles minutos serão eternos. Nas lágrimas de Daniela, medo. Medo do futuro e do presente.

Não sei que crime cometeu Daniela. Nem sei se ela lembra. Não sei se estava sóbria, se estava livre. Se foi agente ou cúmplice. Sei que ela é vítima, pois conheço um pouco dos caminhos que levaram-na àquela sala.

Algo está errado. Os sinais são claros. É preciso ter coragem para vê-los. Quem conhece o Fórum Criminal da Barra Funda pode imaginar a sociedade que necessita de um colosso daqueles. Alguma coisa está fora da ordem. Estamos matando nossas Danielas, oferecendo-lhes a alternativa do crime. Por omissão, por descaso, por incompetência, por egoísmo.

Perdoe-nos, Daniela, por não termos te visto nos faróis. Perdoe-nos, Daniela, por não termos ajudado a cumprir o Estatuto da Criança e do Adolescente, virando a cara diante de verdades tão evidentes. Perdoe-nos, Daniela, por termos nos desviado de impostos e tributos, que bem ou mal poderiam amenizar um pouco teu sofrimento. Perdoe-nos pelos votos dados a políticos inescrupulosos e corruptos, que jamais passarão pelo que você passou, jamais sentirão o medo que você sentiu. Perdoe-nos, Daniela, por não termos denunciado tudo o que vimos, tudo o que presenciamos, tudo o que poderíamos. Perdoe-nos, por não termos te incluído em nossas preces, pois achamos que você era um ser diferente, distante de nós. Perdoe-nos, Daniela, por não termos aprendido a amar. Um dia, quem sabe, conseguiremos...
Choro com você, Daniela, pelo Brasil, que está jogando fora uma geração inteira de crianças e adolescentes sem chance e sem esperança. Filhos de famílias cuja pátria é a marquise, o viaduto. Meninos e meninas da rua. Menores largados à própria sorte, sem educação, sem saúde, sem segurança. Frutos do acúmulo de riquezas, da má distribuição de renda, do preconceito, da corrupção, da impunidade.

O trabalho do Projeto Pão Nosso é lutar para que as Danielas usem pulseiras, e não algemas. Chorem por paixão e romance, e não por medo. Esperem pelo resultado do vestibular, e não por uma sentença. Nosso objetivo é evitar que em teus olhos, Daniela, mostres tanta dor.

Edson Nascimento

* Daniela é real. Nosso encontro aconteceu no Fórum da Barra Funda, no dia 23 de abril, às 15:30

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