"O que me preocupa não é o grito dos maus, é o silêncio dos bons."


19 de jun. de 2009

Eu vejo pessoas mortas (Arthur, querido Marello)

Eu vejo pessoas mortas, dançando, andando, comendo, conversando, para onde quer que olhe vejo pessoas mortas.

Salas escuras e quentes, repletas de fumaça e barulho; multidões infinitas espremidas em pequenos espaços e um cheiro de suor e vómito que se mistura no ar. Esse é o ambiente que habitam.

Não, não é o inferno, é só a balada bombando no auge do sábado à noite. E não, essas pessoas não são cadáveres em decomposição, são jovens saudáveis, cheios de vitalidade, afogando o esplendor de seus poucos anos no álcool, no cigarro, no sexo e nas drogas.

Por que acreditam que isso lhes traga a felicidade? Será que são incapazes de ouvir o fígado, o estômago, os pulmões e o coração clamando por um pouco de alívio?

O que será que os faz tão cegos?

Serão os demônios nos outdores vestidos com pouca roupa e grandes decotes, pregando a salvação redonda no copo de cerveja gelada? Ou os demônios na televisão anestesiando a rotina com um gole seco de uísque? “É para relaxar” dizem eles.

Serão os demônios tragando a fumaça cancerígena que promete uma fuga momentânea da realidade em pouco mais de quatro centímetros roliços?

Serão os demônios esculpidos pelo bisturi e pelo mouse, desfilando nas revistas, ruas e passarelas, pregando a doutrina do breve e passageiro êxtase do orgasmo, que não se sabe ao certo o que é, mas deseja-se impulsivamente?

Serão os demônios poluindo o sangue com anabolizantes e hormônios, forçando os músculos além dos limites, para ficar tão inchado quanto o gado no pasto?

Ou serão os demônios fumando a erva natural que não mata, mas escraviza. Entupindo o nariz com pó branco e a boca com doces e balas amargas?

Demônios corruptos prometendo a salvação.

Demônios fardados fingindo que não vêem.

E demônios engravatados enchendo seus bolsos sem fundo com a vida da juventude suicida.

Se ao menos por um breve instante pudessem perceber sua fragilidade e que em baixo de tanta força mora uma criança cheia de dúvidas e medos perante a vida, que ainda chora quando as coisas não saem como o planejado.

Se ao menos por um breve instante assumissem suas dúvidas e fraquezas, poderiam enxergar claramente a dádiva que toda a existência já é nesse momento.

E esse demônio que habita a todos sem exceção, não é ninguém mais que o próprio Divino que ainda não despertou para sua verdadeira natureza de paz.

Apenas observe os exemplos ao redor:

Os ricos desejam tanto o dinheiro quanto os pobres.

Os poderosos desejam tanto o poder quanto os submissos.

E os famosos desejam tanta a fama quanto os anônimos.

Se a eles, que são seres humanos como eu e você, isto não satisfez, porque a nós satisfaria?

Por favor não negligencie este alerta, não deixe para perceber isto daqui a algumas décadas, moribundo no leito de morte. Sinta a ressaca do domingo para perceber que todos esses prazeres são passageiros.

Aproveite a ausência de dores nas juntas, o baixo nível de colesterol e o frescor dessa energia jovem para despertar.

“O esforço é o caminho da eternidade, a negligência é o caminho da morte.
Quem estuda e pratica com empenho redescobre a imortalidade.
Quem indulgência a negligência e as diversões inconscientes,
Mesmo que ainda respire, já está morto.”

Dhammapada, verso 21

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