Eu vejo pessoas mortas, dançando, andando, comendo, conversando, para onde quer que olhe vejo pessoas mortas.
Salas escuras e quentes, repletas de fumaça e barulho; multidões infinitas espremidas em pequenos espaços e um cheiro de suor e vómito que se mistura no ar. Esse é o ambiente que habitam.
Não, não é o inferno, é só a balada bombando no auge do sábado à noite. E não, essas pessoas não são cadáveres em decomposição, são jovens saudáveis, cheios de vitalidade, afogando o esplendor de seus poucos anos no álcool, no cigarro, no sexo e nas drogas.
Por que acreditam que isso lhes traga a felicidade? Será que são incapazes de ouvir o fígado, o estômago, os pulmões e o coração clamando por um pouco de alívio?
O que será que os faz tão cegos?
Serão os demônios nos outdores vestidos com pouca roupa e grandes decotes, pregando a salvação redonda no copo de cerveja gelada? Ou os demônios na televisão anestesiando a rotina com um gole seco de uísque? “É para relaxar” dizem eles.
Serão os demônios tragando a fumaça cancerígena que promete uma fuga momentânea da realidade em pouco mais de quatro centímetros roliços?
Serão os demônios esculpidos pelo bisturi e pelo mouse, desfilando nas revistas, ruas e passarelas, pregando a doutrina do breve e passageiro êxtase do orgasmo, que não se sabe ao certo o que é, mas deseja-se impulsivamente?
Serão os demônios poluindo o sangue com anabolizantes e hormônios, forçando os músculos além dos limites, para ficar tão inchado quanto o gado no pasto?
Ou serão os demônios fumando a erva natural que não mata, mas escraviza. Entupindo o nariz com pó branco e a boca com doces e balas amargas?
Demônios corruptos prometendo a salvação.
Demônios fardados fingindo que não vêem.
E demônios engravatados enchendo seus bolsos sem fundo com a vida da juventude suicida.
Se ao menos por um breve instante pudessem perceber sua fragilidade e que em baixo de tanta força mora uma criança cheia de dúvidas e medos perante a vida, que ainda chora quando as coisas não saem como o planejado.
Se ao menos por um breve instante assumissem suas dúvidas e fraquezas, poderiam enxergar claramente a dádiva que toda a existência já é nesse momento.
E esse demônio que habita a todos sem exceção, não é ninguém mais que o próprio Divino que ainda não despertou para sua verdadeira natureza de paz.
Apenas observe os exemplos ao redor:
Os ricos desejam tanto o dinheiro quanto os pobres.
Os poderosos desejam tanto o poder quanto os submissos.
E os famosos desejam tanta a fama quanto os anônimos.
Se a eles, que são seres humanos como eu e você, isto não satisfez, porque a nós satisfaria?
Por favor não negligencie este alerta, não deixe para perceber isto daqui a algumas décadas, moribundo no leito de morte. Sinta a ressaca do domingo para perceber que todos esses prazeres são passageiros.
Aproveite a ausência de dores nas juntas, o baixo nível de colesterol e o frescor dessa energia jovem para despertar.
“O esforço é o caminho da eternidade, a negligência é o caminho da morte.
Quem estuda e pratica com empenho redescobre a imortalidade.
Quem indulgência a negligência e as diversões inconscientes,
Mesmo que ainda respire, já está morto.”
Dhammapada, verso 21

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