O Livro de Mirdad
(capítulo XXIV)
É lícito matar para comer?
Quando Shamadam e o açougueiro haviam-se retirado, Micayon perguntou ao Mestre:
Micayon:Não é lícito, Mestre, mata para comer?
MIRDAD:Alimentar-se da Morte é tornar-se o alimento da Morte. Viver de dores alheias é tornar-se presa da dor. Assim o decretou a Onivontade. Toma conhecimento disso e escolhe teu curso, Micayon.
Micayon:Se eu pudesse escolher, escolheria viver como a fênix, do aroma das coisas, não da sua carne.
MIRDAD:Em verdade, uma excelente escolha. Crê Micayon, que o dia virá em que os homens viverão do aroma das coisas, que é seu espírito, e não de sua carne e de seu sangue. E esse dia não está longe para aqueles que anseiam.
E os que anseiam sabem que a vida da carne nada mais é do que uma ponte para a Vida desencarnada.
Os que anseiam sabem que os sentidos grosseiros e inadequados são apenas vigias pelas quais se espia o mundo do sentido infinitamente apurado e adequado.
Os que anseiam sabem que toda carne que laceram, mais cedo ou mais tarde, terão de reparar com a própria carne, e todo osso que esmagam terão de reconstruir com os próprios ossos, e cada gota de sangue que derramam terão de suprir com o próprio sangue, pois essa é a lei da carne.
Os que anseiam gostariam de estar livres da servidão dessa lei. Por isso, reduzem ao mínimo suas necessidades corporais, reduzindo, assim, seu débito à carne - o qual é, em verdade, um débito à Dor e à Morte.
(...)

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